B55 Conference 2026  ·  Dia 02  ·  painel de 1h05

Crescer sem diluir a marca

Três operadores brasileiros contam as decisões de canal, portfólio e capital que tomaram — e as que recusaram — em empresas que cresceram muito sem quebrar a marca no caminho.

Renata Vichi
Kopenhagen · grupo CRM
Artur Grynbaum
Grupo Boticário
Sandra Chayo
Hope
Flavio Dias
mediação

Os três casos, e a jogada central de cada um

Kopenhagen

Única marca centenária de chocolate premium do Brasil, 30 anos sob a mesma liderança. O posicionamento é de presente, não de chocolate: até então chocolate se comprava em supermercado.

A jogada

Recusou a linha de entrada que venderia e criou o Brasil Cacau do zero — marca, portfólio e entendimento industrial novos.

~R$ 800 mi e 700 lojas → dobrou em 3 anos → vendida à Nestlé por R$ 4,3 bi

Grupo Boticário

De uma marca a um ecossistema: 15+ marcas, cerca de 4 mil lojas em 1.750 municípios e os cinco canais ao mesmo tempo — franquia, venda direta, e-commerce, multimarca e profissional.

A jogada

Comprou canal, não participação de mercado: Vult para entrar no multimarca, Truss no profissional.

Reorganizou por jornada do cliente estando bem — 800 pessoas mudaram de posição

Hope

Sessenta anos, fundada em 1966. Era fábrica de calcinhas vendida em armarinho e loja de departamento; virou varejo de marca. Franquia em 2005, e-commerce em 2006.

A jogada

Subiu de patamar durante anos e, só depois, desceu um degrau de propósito: a linha acessível, em todas as categorias.

Saiu de um produto principal com R$ 3 de custo; multimarca ainda é ~30% do negócio

A ordem em que as decisões se sustentam

Não é um processo de projeto — é uma dependência. Sem o passo 1, os passos 3, 4 e 6 não têm critério para recusar nada.

  1. 1

    Fixe o inegociável

    O que você mudaria tudo em volta para não mudar. Escreva antes de olhar qualquer oportunidade.

  2. 2

    Teste o encaixe, não a marca

    Cabe na proposta de valor desta marca? Não cabe, bota na gaveta — e guarde a gaveta: ela vira portfólio quando você virar multimarca.

  3. 3

    Escolha o vetor de portfólio

    Esticar, criar ou comprar — nomeando o cunho estratégico antes do caminho.

  4. 4

    Abra canal medindo

    Uma unidade, e mede o efeito sobre o incumbente. Discurso não resolve conflito de canal.

  5. 5

    Monte a máquina antes da velocidade

    Time, governança e incentivo primeiro. A ambição não é o limite da expansão — a máquina é.

  6. 6

    Decida capital do campo do arbítrio

    Negocie de quem escolhe, com os inegociáveis declarados na mesa em vez de descobertos no primeiro conflito.

  7. 7

    Reorganize ganhando

    Dez anos à frente → volta para hoje → check de competências → só então o organograma.

Sete regras que contrariam o manual

Um terço do que o painel afirma vai contra o senso comum de gestão. É onde o método diverge de propósito — e onde a tentação de suavizar é maior.

Ser o melhor vem antes de ser o maior

“A ordem é essa: é ser o melhor. Depois vem a chance de ser o maior. Número é consequência do que a gente faz no dia a dia.”

Artur Grynbaum

Mexa em time que está ganhando

A reorganização grande se faz na folga, não na crise — e em crise se mexe direto no time e na área que não funciona, mas só nessas. A regra não se inverte em “mexa sempre”.

Artur Grynbaum

O KPI da expansão é a rede que já existe

Não o número de aberturas. “Não existe expansão saudável se a sua rede não cresce.”

Renata Vichi

Organize antes de crescer

“A gente espera crescer para depois organizar. E na verdade a gente precisa ter um time capaz, com a estratégia elucidada, incentivado.”

Renata Vichi

O fundo pode aumentar a sua autonomia

“O que mudou é que eu ganhei ainda mais autonomia do que eu tinha antes.” A autonomia da empresa familiar é, em parte, miopia.

Renata Vichi

Reinvista mesmo dando muito dinheiro

“O empresário só ganha dinheiro no evento de liquidez” — dito de uma empresa com mais de 30% de EBITDA e 80% de geração de caixa.

Renata Vichi, citando o pai

Quanto mais tecnológico, mais humano você precisa ser

Tech é aceleração, não substituição: uma grade comercial que levava 16 horas sai em 3 minutos. Mas quem rearruma o sistema de atendimento com IA são as pessoas da loja — ele foi construído sobre a jornada da consultora, e o diferencial fica na curadoria, no acolhimento e na empatia. “Digitalizar o que você faz hoje tem valor, mas o grande valor não está aí.”

Artur Grynbaum

Conflito de canal: o caso e o mecanismo

O caso Salvador

Antes
Praça fraca, dois ou três clientes multimarca, mercado pouco explorado. A Hope abre ali a primeira franquia.
Reação
Os multimarcas reclamam no primeiro momento. Praça fraca não comprou paz — só barateou o experimento.
Depois
Os mesmos que reclamaram passaram a vender e a comprar mais. Marca mais forte na praça aumenta a demanda de todos, e o efeito se repetiu em praças que já tinham multimarca e franquia instalados.

“Não tem como negar dados, fatos e dados.” — Sandra Chayo

O que ninguém enuncia

Torne o incumbente sócio do canal novo

O painel verbaliza o efeito — “um canal dá força para o outro” — mas nunca o mecanismo, que dois donos diferentes praticam:

  • A venda direta do Boticário entrou pela rede de franqueados, que faz a frente com a revendedora: “eu não queria criar um canal que competisse comigo mesmo”.
  • Na Kopenhagen, 40 a 50% da expansão sempre foi feita com franqueado que já era da rede.

Compensar o incumbente com desconto não resolve. Dar a ele papel econômico dentro do canal novo, resolve.

Entrar numa categoria nova: três caminhos, um critério

Esticar a marca

Mais rentável, porque poupa o período mais caro: o de lançamento. Malbec tem 12+ variantes e é a terceira fragrância mais vendida do mundo, sempre mantendo a característica original da base.

O risco: só isso não traz inovação suficiente.

Criar marca nova

O caminho difícil, e o único que preserva um posicionamento que não admite elasticidade. “Criar do zero, em 99% dos casos, vai custar mais caro e mais tempo.”

O retorno: o Brasil Cacau é hoje cerca de 30% a 35% do faturamento do grupo.

Comprar

Legítimo em três cunhos: categoria em que você não atua, aceleração de portfólio, ou o direito de entrar num canal — “eu compro, entre aspas, o direito de entrar nisso”.

O limite: ativo que não cabe nos seus valores “estraga o pacote como um todo”.

O critério vem antes do caminho: nomeie o cunho estratégico. “Não pode ser só bacana, porque eu acho bacana.”
E confira o alvo antes de desenhar a estratégia: o Boticário foi orgânico porque, “quando você abria a porta do armário, tinha um cemitério”.

O que o painel não resolve

Kopenhagen recusou exatamente a jogada que a Hope fez — e os dois casos ficam lado a lado sem reconciliação.

Renata recusa por auto-referência: a linha de entrada “teria desvirtuado o caminho exitoso que Kopenhagen teve”. Sandra decide por provocação de consultoria externa, público endereçável e praças em que não conseguia entrar. Nenhuma das duas usa o tipo de posicionamento como critério.

Um detalhe que a comparação costuma ignorar: a Hope veio de baixo — produto principal com R$ 3 de custo no início dos anos 2000. Descer um degrau era voltar perto da origem dela, não abandonar um patamar histórico.

O único critério enunciado no painel é de encaixe, não de tipologia de marca: o que não cabe na proposta de valor daquela marca, bota na gaveta. Quem decide por tipologia está inventando uma regra que a fonte não deu.

Os números que eles citaram

R$ 4,3 bi
venda do grupo CRM à Nestlé
250
lojas abertas num ano, no pico — e 250 visitadas por ano pela CEO
1.750
municípios com loja do Grupo Boticário
14 dias
para fazer um bombom Sherry: processo que não se mexe
18 meses
de reorganização “no amor” sem resultado, antes de trocar o organograma
800
pessoas que mudaram de cadeira e de descrição de cargo
30–40
business cases de ponto comercial avaliados por semana
16h → 3min
a grade comercial, antes e depois da IA